Tudo o que deixamos para trás é um livro de estreia. Mas não parece. Iariny Carvalho é, no rigor da palavra, uma escritora. Ela faz literatura. Não a faz sozinha, obviamente. Ao escrever, Iariny Carvalho escreve à muitas mãos, tutelada pelas suas influências literárias imediatas, pelo acúmulo de leituras e vivências que se transformam em dizeres múltiplos, narrativas inventivas e equilibradas.

 

Aqui está um livro de quem sabe o que dizer e o diz com força e maturidade. E percebemos logo que a escrita literária de Iariny Carvalho se constrói entre tensões psicológicas, existenciais e uma comprometida busca pelo rigor estético. Escrever bem, ou melhor, escrever os estranhamentos da existência com uma linguagem cristalina, porém rigorosamente arquitetada, que envolve o leitor desde a primeira frase, é o grande enlaço deste livro. Iariny Carvalho nos apresenta narrativas cuja prospecção ontológica significa isto: o que buscamos, afinal? Uma garota que foge, o que busca na fuga? Uma mulher indefinida, no angustiante enfrentamento de si mesma, o que procura? A personagem que se recusa a aceitar o passado, o que busca? O que procuramos no suicídio? Os temas ontológicos deste livro são questões que povoam a nós todos, e, por isso mesmo, quando o lemos, somos inseridos na tradição da grande literatura universal, que nada mais é senão o enfrentamento das questões fundamentais da existência. Iariny Carvalho, no entanto, não faz prognósticos. Antes, interessa-se pela busca, pela investigação, o como dizer, o existir e suas fraturas. Ela elege o conto – este dificílimo gênero rebelde ─ como arena. E joga com suas personagens, seus destinos e suas angústias, talvez estabelecendo-se também nos textos, talvez dizendo-se ao dizer os enredos implícitos e explícitos das narrativas. Aqui, as personagens são construídas (ou experimentadas?) imersas em situações e sentimentos que qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, pode vivenciá-las. Aqui, os seres vivem em completa desarmonia consigo mesmos. As inquietudes que as personagens revelam, exigem de Iariny Carvalho uma rigorosa busca pela palavra certeira, a frase lapidada, o texto exímio. Dá-se a impressão, ao lermos os contos deste livro, que não é o texto que constroem as sensações, são as sensações que exigem a construção do texto. A sintaxe de Iariny Carvalho é uma urgência das vivências e sensações de suas personagens.

 

O conto de Iariny Carvalho remete à tradição do conto moderno, mas sem experimentações linguísticas e estilísticas. Tudo o que deixamos para trás é um livro que privilegia o denso, no entanto sem ocultar o lirismo, à maneira das grandes narradoras inventivas, como Clarice Lispector, que é influência decisiva nestas narrativas. Em alguns relatos, a tensão entre as personagens e seus destinos é desencadeada do modo de uma narrativa investigativa, os detalhes vão-se apresentando aos poucos, criando um clima de mistério; embora, de saída, já intuímos o destino final de certas personagens. Iariny Carvalho escreve o tortuoso, o estranhamento, não peca, porém, galgando o hermetismo linguístico. Muitas vezes sua prosa segue transparente, límpida, mas não preguiçosa ou pedante. Vê-se, de imediato, que há muito trabalho na artesania desses contos, custos altos na construção das frases e enredos, trabalho próprio de quem sabe que escrever literatura é uma batalha (muitas vezes perdida) sem descanso.

Algum inadvertido poeta nos disse que escrever é sempre deixar certas coisas para trás. Em outras palavras, toda escrita é um abandono. Escrevemos, pois, não para encontrar o ausente de nós, mas precisamente para fundar o ausente, ir largando pelos caminhos os pedaços de existências que não nos cabem mais. O poeta esqueceu-se de dizer que abandonar é um ato paradoxal. Tudo o que deixamos para trás carrega consigo uma fração de nós mesmos. Ninguém se liberta do que abandonou. A literatura é um exercício de abandono, eu creio. E, por isso mesmo, é uma instância inflada daquilo que deseja deixar, esquecer. 

Não sabemos exatamente o que Iariny Carvalho deseja abandonar com este livro. Sabemos, porém, e tão somente, que, agora, os seus contos hão de povoar o mundo, com tudo o que ela quis deixar para trás.

Tudo o que foi deixado para trás

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