Em seu livro de estreia, Rute deixa bem claro que não veio pra brincar. Ela quer incomodar, causar reflexões, nos tirar do lugar-comum. E para isso vai nos levar a lugares que sequer ousamos imaginar, apresentando cenários distópicos, mas não irreais.

 

Qual seria o nosso papel em um mundo em que nossas certezas fossem todas retiradas: oprimidos ou opressores? Será que nos pareceríamos mais com a moça presa em um futuro que não conseguiu prever? Ou com o homem sujeitado a uma inteligência artificial criada para lhe ser servil?  Preso a uma vida que parece muito melhor com as lentes − ou seriam filtros?

 

Subvertendo a ordem posta, Rute transforma as vítimas em algozes, as perseguidas em heroínas. As mulheres de Rute são reativas, corajosas, protagonistas.  Seus contos têm uma pitada de fantástico, de inesperado. E uma ironia deliciosa.

 

No espelho, vemos medo e loucura refletidos. Na mesa de jantar, uma vingança servida com requintes de crueldade. No hotel, o papel de parede é amarelo, como aquele de Charlote Perkins, me fazendo lembrar que a insanidade feminina sempre tem um lado desconhecido e talvez o principal elemento seja o desejo de poder viver uma outra vida. Como Laura, que sai da cidade à procura de uma fuga e acaba por encontrar seu destino. Ou como Dora, que em busca de seu destino, se vê condenada por seu próprio dom.

 

Se as mulheres que viviam nos Jardins tivessem um livro como o que você tem nas mãos, seria mais fácil sobreviver e resistir aos monstros que nos são apresentados em pronomes masculinos, tentando fecundar à força as sobreviventes de uma guerra que todas nós lutamos. Mulheres sobrevivendo sem nenhuma liberdade – não parece tão irreal. Ainda bem que temos Rute para nos fazer concluir: hoje não parece ser um dia bom para morrer.

Eu te serviria meu coração com vinho branco

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